Saturday, October 18, 2008

Ciência, o que isso tem haver comigo?

Apesar de achar que a imagem fala por si só, vale à pena comentar que o esquema da direita não se aplica somente às religiões, mas também a algumas pseudociências, se não todas. Bem, fica a cargo de cada um ver onde essa ordem de raciocínio se aplica. O interessante é que não se aplica apenas a teorias ou corpos teóricos, como diz Lakatos, mas também à forma como pessoas diferentes pensam sobre coisas diferenças, em seu dia-a-dia, sobre as mais variadas coisas. Algumas crenças populares se dão dessa forma, "comer leite com manga faz mal", apesar de nunca ter visto ninguém comer e passar mal, ou a própria pessoa ter perpetrado tal ato, ou um estudo publicado em um journal, a pessoa crê piamente no fato.

Talvez muito disso se dê devido à nossa história evolutiva, ao fato de que aprendemos desde cedo (ou melhor, a nossa filogenia nos diz) que devemos confiar em autoridades como nossos pais ou cuidadores. O que de fato se mostra muito útil para a nossa sobrevivência, pois sabemos muito pouco do mundo que nos rodeia e temos quase nenhuma habilidade para lidarmos com as dificuldades, e apesar das “mangas com leite” que temos por aí, tem muitas outras como “não coloque o dedo na tomada” e “não coloque um saco plástico na cabeça, você pode se sufocar”. Mas o realmente interessante é que essa é uma característica que acaba estando dentro de nós por toda a vida, e às vezes serve para alguma coisa, e na maioria das vezes não. Muitas vezes tendemos à confiar em autoridades simplesmente por serem autoridades, e por mais nada. Nos políticos com suas promessas, nos professores com seus ensinos, e nem sempre nos damos conta que o conhecimento não se constrói na autoridade, na confiança, mas sim na dúvida, no questionamento e nas evidências bem controladas.

Moral da história, sim esse tal “método científico” ou “pensamento científico” que seguidamente ouvimos falar nos jornais e na televisão, senão pelo menos ouvimos falar dos cientistas. Não é apenas uma forma de conseguirmos descobrirmos remédios para certas doenças, ou como fazer um avião voar mais rápido, ou fazer duas partículas se chocarem para descobrirmos o que acontece com elas, mas sim uma forma de nos esgueirarmos melhor pelos desafios da vida nesse ponto azul e pálido. Pois assim você terá cada vez mais certeza de que está, muito provavelmente, no caminho certo.

Exemplo prático, você decide fazer pão, com uma receita que achou em uma revista ou na internet. O pão fica duro e seco. O que você faz? Bem, você pode confiar na sua vizinha e pedir o que ela faria diferente, mas você pode descobrir a fundo o que realmente é o seu problema. Você faz outro pão, adiciona mais leite. Não deu. Agora você pega a receita original faz outro e muda a temperatura, não dá também. Agora você pega a receita original e coloca mais leite e muda a temperatura. Se você já se pegou em uma situação assim na sua vida, você já é um cientista! Isso nada mais é do que o método científico em prática! Você está levantando hipóteses, e testando-as uma a uma, controlando as variáveis, e vendo qual delas ou a combinação delas gera o resultado que você quer. Se você pode fazer ciência na sua cozinha, você também pode fazer em outros aspectos da sua vida.

Sim, confesso que foi um exemplo um tanto quanto estúpido e que todo mundo vai achar mais fácil pedir para a vizinha. Mas e nas situações em que você não tem alguém em quem confiar para isso, ou em uma situação mais delicada e importante? Talvez você não tenha como testar as hipóteses, talvez você tenha apenas uma tentativa, como, devo autorizar o tratamento X para que meu filho (a) se salve da doença Y? Obviamente você não irá montar um experimento clínico randomizado com controle de variáveis para descobrir. Tem pessoas que já fazem isso, que vivem disso, entregam suas vidas à isso, nós os chamamos de cientistas e eles aparecem de jaleco no Jornal Nacional. Lembra deles? Pois é, eles estão o tempo todo testando hipóteses sobre como resolver problemas, que geralmente são da população, e se não são diretamente, esse conhecimento poderá ser a resposta para outra coisa daqui à dez ou cinqüenta anos. E eles são bem chatos e obsessivos, eles lêem os artigos dos outros pra ver se o outro fez tudo certo, e se acha que não o fez, vai lá e monta novamente o estudo e mostra que ele estava certo ou errado. Pode vir um terceiro e refazer o teste lá no Japão, pra ver se isso se aplica lá também. E assim, vamos tendo cada vez mais certeza de que o que foi achado como solução é ou não o que irá funcionar melhor.

A pergunta agora talvez seja, porque devo confiar no médico e não na minha vizinha? Em primeiro lugar, você não deve, pelo menos não completamente. Se você achar que ele pode estar errado, ou estar inseguro sobre a solução que ele te apresenta, vá atrás, estude sobre o assunto, se ele pode entender, você também pode. Procure uma segunda opinião, uma terceira, recorra às universidades. Há muitas possibilidades. Mas porque então insisto que o médico deve ter mais credibilidade que a sua vizinha? Por que ele é mais rico? Por que ele fala bonito? Por que médicos são bem vistos na sociedade? Por que ele usa jaleco? Por que eles são muito bonzinhos tanto que dedicam sua vida a ajudar completos estranhos? NÃO! Claro que não! Então por quê? Porque existem regulamentações legais que obrigam esses caras de jaleco nos hospitais a fazerem só o que os estudos dos caras de jaleco nas universidades descobrem. Porque o conhecimento que eles estão tentando utilizar é com certeza o mais seguro que há.

Nesse momento alguns devem estar se preocupando com as medicinas ditas “alternativas”. Bem, algo é alternativo ou “sobrenatural” até que se descobre como funciona, se é que funciona. Você realmente acha que esses caras de jaleco do que sempre querem aparecer no jornal nacional vão deixar escapar a oportunidade de descobrir e comprovar curas fantásticas e perder de concorrer a m prêmio Nobel? Acho difícil, quem não gostaria? Tem algumas perguntas que sempre faço aos defensores do “alternativo”. “Se é tão eficaz, porque você não faz um estudo controlado e mostra que isso realmente funciona? E faz com que essa prática se torne legal e possa ajudar muito mais pessoas do que as que são ajudadas ilegalmente em consultórios clandestinos por aí?”; “Se você fosse viajar para o além mar, com toda a sua família e as pessoas que você ama, e lhe dessem duas opções de vôo, um avião é construído por cientistas e pesquisadores, com seus métodos mecanicistas, reducionistas e etc., que estão dispostos a lhe mostrar todo o material pesquisado, todos os testes feitos com a avião, tudo ali para você verificar se foi tudo certinho, e estão dispostos a colocar o seu avião a prova. Já o outro é um avião, digamos “alternativo”, construído por mestres anciãos de uma seita, mas que você não pode duvidar da eficácia do que eles lhe apresentam, e você tem que simplesmente confiar neles. Em qual avião você colocaria a sua vida e a de todos que você ama?”. Sim, são perguntas capciosas, eu sei. Mas de qualquer forma, elas dizem algo sobre nós.

Ao som de: Simon & Garfunkel - A Hazy Shade of Winter

3 comentários:

Mary Wollstonecraft said...

Qual é a diferença entre a construção do pensamento científico e o desenvolvimento tecnológico?

Faço a pergunta principalmente pela parte do texto onde você fala sobre a receita do bolo, onde você diz que testando hipóteses de combinação de ingredientes se é um cientista.

Quero saber também o que são pseudo-ciências...
obrigada!!

Charles C. said...

Apenas agradeço pela figura no topo... mudou minha vida rsrss!!

Ju Amaral said...

todo tipo de pergunta revela algo sobre nós... muito bom o texto, parabéns!!! o problema é que pensar enlouquece e não pensar nos deixa ignorantes... qual a escolha certa??? beijos