Devido a acontecimentos recentes em minha vida, me pus a pensar, mais que o usual, sobre esse evento tão singular e, atualmente, certo em nossas vidas, a morte. Digo “atualmente”, pois não sabemos o que o futuro nos reserva, especialmente com os avanços na interface cérebro/computador. Mas voltando ao assunto, o que pensar sobre isso?
O tema não é novo, o ser humano vem se preocupando com isso desde os primórdios, desde que foi capaz de desenvolver uma consciência, um awarness se preferirem, de si mesmo e de sua finitude enquanto ser vivo. Será? Na verdade não, todos os seres vivos foram selecionados para que haja um imperativo biológico em direção à sobrevivência e reprodução. Logo, desde mossa célula “Eva”, já nos preocupávamos, muito antes de sermos sapiens sapiens. O que se deu foi que o peso da consciência nos levou a buscar um sentido, uma razão para isso. Assim como para a vida.
A vida possui propósito, sentido, graça, beleza, ou o quaisquer que sejam os nomes, porque a morte está a espreita, a cada instante. A morte é imprescindível para vida assim como a luz é para sombra. Mas porque há a morte então? A genética e a seleção natural nos respondem essa pergunta com facilidade. Uma vez que o pico de reprodução se dá na juventude, os genes deletérios que virão a se manifestar na idade avançada já terão sido passado aos descendentes. Mas por que então não vivemos para sempre para ficarmos passando os nossos genes? É uma questão basicamente econômica, pois partimos da premissa óbvia de que os recursos não são ilimitados. Numa escala de investimento vs. lucro em uma reprodução assexuada se mostra mais eficaz termos um tempo de vida médio e um nível de reprodução médio, uma vez que os recursos são demasiado escassos para que se possa ter extremos em ambos.
Tá, tudo bem, mas isso deveria me reconfortar de alguma forma? Hum, provavelmente não, mas ela pelo menos nos dá um porquê da existência do fenômeno. Mas como temos esta experiência (e aqui não quis cair no jargão filosófico e dizer “religiosa”, e explicar que vem do latim religiare, que significa religar). Então, como temos esse sense of coherence²?
Enquanto me questionava isso em meu íntimo lembrei-me de duas belíssimas e famosas citações de Carl Sagan, “Nós mesmos somos feitos de poeira de estrelas” e “O ser humano é a forma que o Cosmos encontrou de conhecer a si mesmo”. Ao pensar sobre o que sentia, pensar sobre o que pensava, pensar nas minhas crenças sobre o universo e como as coisas são cheguei a seguinte conclusão:
“Somos matéria, essa mesma que temos a nossa volta, não somos dissociados dela, somos ela. No infinito do cosmos tivemos a oportunidade de que essa matéria pudesse, através de um processo gradual e cumulativo, ganhar complexidade ao ponto de criar aparente consciência de si mesmo. Temos o privilégio de permanecer assim por um curto espaço de tempo. E a nossa morte, não é morte de fato, simplesmente retomamos nossa comunhão com o Cosmos, mesmo que essa jamais tenha deixado de existir, e partimos a ser vida para outrem.”
1 – Título de capítulo do filme Monty Python and The Meaning of Life. 2 – Termo cunhado por Aaron Antonovsky para designar, e eu cito: “The extent to which one has a pervasive, enduring though dynamic, feeling of confidence that one’s environment is predictable and that things will work out as well as can reasonably be expected.”
Apesar de achar que a imagem fala por si só, vale à pena comentar que o esquema da direita não se aplica somente às religiões, mas também a algumas pseudociências, se não todas. Bem, fica a cargo de cada um ver onde essa ordem de raciocínio se aplica. O interessante é que não se aplica apenas a teorias ou corpos teóricos, como diz Lakatos, mas também à forma como pessoas diferentes pensam sobre coisas diferenças, em seu dia-a-dia, sobre as mais variadas coisas. Algumas crenças populares se dão dessa forma, "comer leite com manga faz mal", apesar de nunca ter visto ninguém comer e passar mal, ou a própria pessoa ter perpetrado tal ato, ou um estudo publicado em um journal, a pessoa crê piamente no fato.
Talvez muito disso se dê devido à nossa história evolutiva, ao fato de que aprendemos desde cedo (ou melhor, a nossa filogenia nos diz) que devemos confiar em autoridades como nossos pais ou cuidadores. O que de fato se mostra muito útil para a nossa sobrevivência, pois sabemos muito pouco do mundo que nos rodeia e temos quase nenhuma habilidade para lidarmos com as dificuldades, e apesar das “mangas com leite” que temos por aí, tem muitas outras como “não coloque o dedo na tomada” e “não coloque um saco plástico na cabeça, você pode se sufocar”. Mas o realmente interessante é que essa é uma característica que acaba estando dentro de nós por toda a vida, e às vezes serve para alguma coisa, e na maioria das vezes não. Muitas vezes tendemos à confiar em autoridades simplesmente por serem autoridades, e por mais nada. Nos políticos com suas promessas, nos professores com seus ensinos, e nem sempre nos damos conta que o conhecimento não se constrói na autoridade, na confiança, mas sim na dúvida, no questionamento e nas evidências bem controladas.
Moral da história, sim esse tal “método científico” ou “pensamento científico” que seguidamente ouvimos falar nos jornais e na televisão, senão pelo menos ouvimos falar dos cientistas. Não é apenas uma forma de conseguirmos descobrirmos remédios para certas doenças, ou como fazer um avião voar mais rápido, ou fazer duas partículas se chocarem para descobrirmos o que acontece com elas, mas sim uma forma de nos esgueirarmos melhor pelos desafios da vida nesse ponto azul e pálido. Pois assim você terá cada vez mais certeza de que está, muito provavelmente, no caminho certo.
Exemplo prático, você decide fazer pão, com uma receita que achou em uma revista ou na internet. O pão fica duro e seco. O que você faz? Bem, você pode confiar na sua vizinha e pedir o que ela faria diferente, mas você pode descobrir a fundo o que realmente é o seu problema. Você faz outro pão, adiciona mais leite. Não deu. Agora você pega a receita original faz outro e muda a temperatura, não dá também. Agora você pega a receita original e coloca mais leite e muda a temperatura. Se você já se pegou em uma situação assim na sua vida, você já é um cientista! Isso nada mais é do que o método científico em prática! Você está levantando hipóteses, e testando-as uma a uma, controlando as variáveis, e vendo qual delas ou a combinação delas gera o resultado que você quer. Se você pode fazer ciência na sua cozinha, você também pode fazer em outros aspectos da sua vida.
Sim, confesso que foi um exemplo um tanto quanto estúpido e que todo mundo vai achar mais fácil pedir para a vizinha. Mas e nas situações em que você não tem alguém em quem confiar para isso, ou em uma situação mais delicada e importante? Talvez você não tenha como testar as hipóteses, talvez você tenha apenas uma tentativa, como, devo autorizar o tratamento X para que meu filho (a) se salve da doença Y? Obviamente você não irá montar um experimento clínico randomizado com controle de variáveis para descobrir. Tem pessoas que já fazem isso, que vivem disso, entregam suas vidas à isso, nós os chamamos de cientistas e eles aparecem de jaleco no Jornal Nacional. Lembra deles? Pois é, eles estão o tempo todo testando hipóteses sobre como resolver problemas, que geralmente são da população, e se não são diretamente, esse conhecimento poderá ser a resposta para outra coisa daqui à dez ou cinqüenta anos. E eles são bem chatos e obsessivos, eles lêem os artigos dos outros pra ver se o outro fez tudo certo, e se acha que não o fez, vai lá e monta novamente o estudo e mostra que ele estava certo ou errado. Pode vir um terceiro e refazer o teste lá no Japão, pra ver se isso se aplica lá também. E assim, vamos tendo cada vez mais certeza de que o que foi achado como solução é ou não o que irá funcionar melhor.
A pergunta agora talvez seja, porque devo confiar no médico e não na minha vizinha? Em primeiro lugar, você não deve, pelo menos não completamente. Se você achar que ele pode estar errado, ou estar inseguro sobre a solução que ele te apresenta, vá atrás, estude sobre o assunto, se ele pode entender, você também pode. Procure uma segunda opinião, uma terceira, recorra às universidades. Há muitas possibilidades. Mas porque então insisto que o médico deve ter mais credibilidade que a sua vizinha? Por que ele é mais rico? Por que ele fala bonito? Por que médicos são bem vistos na sociedade? Por que ele usa jaleco? Por que eles são muito bonzinhos tanto que dedicam sua vida a ajudar completos estranhos? NÃO! Claro que não! Então por quê? Porque existem regulamentações legais que obrigam esses caras de jaleco nos hospitais a fazerem só o que os estudos dos caras de jaleco nas universidades descobrem. Porque o conhecimento que eles estão tentando utilizar é com certeza o mais seguro que há.
Nesse momento alguns devem estar se preocupando com as medicinas ditas “alternativas”. Bem, algo é alternativo ou “sobrenatural” até que se descobre como funciona, se é que funciona. Você realmente acha que esses caras de jaleco do que sempre querem aparecer no jornal nacional vão deixar escapar a oportunidade de descobrir e comprovar curas fantásticas e perder de concorrer a m prêmio Nobel? Acho difícil, quem não gostaria? Tem algumas perguntas que sempre faço aos defensores do “alternativo”. “Se é tão eficaz, porque você não faz um estudo controlado e mostra que isso realmente funciona? E faz com que essa prática se torne legal e possa ajudar muito mais pessoas do que as que são ajudadas ilegalmente em consultórios clandestinos por aí?”; “Se você fosse viajar para o além mar, com toda a sua família e as pessoas que você ama, e lhe dessem duas opções de vôo, um avião é construído por cientistas e pesquisadores, com seus métodos mecanicistas, reducionistas e etc., que estão dispostos a lhe mostrar todo o material pesquisado, todos os testes feitos com a avião, tudo ali para você verificar se foi tudo certinho, e estão dispostos a colocar o seu avião a prova. Já o outro é um avião, digamos “alternativo”, construído por mestres anciãos de uma seita, mas que você não pode duvidar da eficácia do que eles lhe apresentam, e você tem que simplesmente confiar neles. Em qual avião você colocaria a sua vida e a de todos que você ama?”. Sim, são perguntas capciosas, eu sei. Mas de qualquer forma, elas dizem algo sobre nós.
Ao som de: Simon & Garfunkel - A Hazy Shade of Winter
Um gênio russo ganhou um dos maiores prêmios mundiais de matemática nesta quinta-feira ao resolver um dos sete "problemas do milênio". Grigory Perelman, 40 anos, levou 10 anos para resolver a conjectura de Poincare, que descreve o formato do universo e intriga especialista há pelo menos 100 anos.
Perelman, que divide o aluguel de US$ 74 com a mãe e está desempregado desde dezembro, recusou o prêmio de US$ 1 milhão a ser entregue pelo próprio rei da Espanha e alega que não fez nada de extraordinário.
"Eu não acho que eu seja de interesse público", disse o matemático ao London Telegraph. "Eu não falo isso por causa da minha privacidade, não tenho nada a esconder. Só acho que o público não deve se interessar por mim. Jornais deveriam ter mais discernimento sobre o que publicar, deveriam ter mais requinte. Até onde eu sei, não ofereço nada que acrescente à vida dos leitores", completou.
Depois de 10 anos de trabalho, o modesto Perelman, ao invés de publicar seu achado em um importante jornal, jogou tudo em uma página da Internet, para que todos tenham acesso. "Se alguém tiver interesse na solução do problema, está tudo lá. Deixe-os pesquisar livremente."
Perelman vive recluso em São Petersburgo e mantém-se afastado da mídia. "Publiquei meus achados. É isto que ofereço ao público."
A solução do problema pode ser vista nos sites http://arxiv.org/abs/math.DG/0211159, http://arxiv.org/abs/math.DG/0303109 e http://arxiv.org/abs/math.DG/0307245. Devido ao tráfego intenso, pode haver instabilidade no acesso aos links.
As músicas e vídeos desse cara foram um achado no infinito mundo digital da internet. Não há muito o que dizer, a não ser que ele fala por muitos de nós, e de uma forma engraçada, inteligente e elegante. Aqui segue o vídeo de "Creaton Science 101" com a sua letra e uma tradução livre feita por mim. Para mais informações, músicas, vídeos e letras entrem no seu site oficial: http://www.royzimmerman.com/
God made the world in seven days Well, that’s one week to be specific Now, that’s what I call scientific Say Hallelujah, sing His praise
Four thousand forty-two B.C. On Monday, August twenty-seven He made the earth and sky and Heaven Then he punched out at five-oh-three
Then he made Adam, and then Eve A garden for them to inhabit The apple right where Eve could grab it And I've got proof, 'cause I believe
Creation Science 101 In the beginning it begun And you are just beginning to educate yourself when you shun Evolution
Then Cain and Abel he begat And they begat all of the rest to us Which means they must have been incestuous I'm going to have to pray about that
There might be sinners in this class Who might believe in Charles Darwin I guess that's just their loss and our win Because I'm gonna flunk their ass
If you make Genesis your text You’ll laugh at Darwin and what he sees To be the origin of species Because he's just plain oversexed
Creation Science 101 You ain't no monkey's great grandson You’ve got a research paper due 'bout the fifty reason to shun Evolution
Don't let em' hand you that old jive About survival of the fittest That notion don't pass the bull**** test 'Cause look at me, I'm still alive
God made the world just like it is He made the fossils just to tease us Old bones to test our faith in Jesus Yeah, this'll all be on the quiz
Creation Science 101 Now Armagedd-your homework-done Because when this semester's through, It's straight A's for students who shun Evolution
The kids get such an education When they shun The heretical theory of the development of life on earth over millions of years by means of spontaneous genetic mutation
Tradução Deus fez o mundo em sete dias Bem, isso é uma semana para ser específico Agora, isso é que eu chamo de científico Digam Aleluia, cantem as Suas orações
Quatro mil anos A.C. Na segunda, vinte e sete de agosto Ele fez a terra o ceu e o paraíso E então ele mandou às cinco e três
Então ele fez Adão, e depois Eva Um jardim onde eles pudessem habitar A maçã bem onde a Eva podia alcançar Eu tenho provas porque eu acredito
Ciência da Criação 101 No começo ela começou E vocês esão apenas começando a se educar quando evitam a evolução
Então Caim e Abel procriaram E eles procriaram a todos nós O que significa que eles devem ter sido incestuoso Eu vou rezar sobre isso
Podem haver pecadores nessa sala Que talvez acreditem em Charles Darwin Eu acho que isso é só a sua perda e o nosso ganho Porque eu vou dar uma surra em seus traseiros
Se você fizer do Genesis o seu texto Você irá rir de Darwin e do que ele vê Para ser a origem das espécies Porque o plano dele é ultra sexualizado
Ciência da Criação 101 Você não é o bisneto de de um macaco Você tem uma pesquisa a fazer Sobre a quinta razão para evitar a Evolução
Não deixo eles te convencerem desse velho jargão Sobre a sobrevivência do mais forte Essa noção não passou no teste de mentiras Porque olhe pra mim, Eu ainda estou vivo!
Deus fez o mundo exatamente como ele é Ele fez os fósseis só para nos importunar Ossos velhos só para testar a nossa fé em Jesus Sim, isso tudo faz parte do jogo
Ciênca da Criação 101 Agora façam o seu tema de casa (Trocadilho entre armagedon e done) Porque nesse semestre É 10 para todos os alunos que evitarem a Evolução
Essas crianças recebem tanta educação Quando eles evitam A teoria do dosenvolvimento da vida na terra por milhões de anos por meio de mutações genéticas espontânas
Não há nada errado em ser agnóstico onde não há evidência em ambos os lados. É a posição razoável. Carl Sagan tinha orgulho de dizer que era agnóstico quando lhe perguntavam sobre vida em algum outro lugar no universo. Quando ele se recusava a se comprometer com uma posição, o seu interlocutor o pressionava por um gut feeling (pressentimento; ‘sentimento das entranhas’), ele imortalmente respondia: “Eu tento não pensar com minhas entranhas. Sério, não tem problema em esperar a evidência para fazer o seu julgamento.”
Após essaparte, Dawkins, faz uma distinção entre dois tipos diferentes de agnósticos.Um ele chama de TAP (Temporary Agnosticism in Practice), e o outro de PAP (Permanent Agnosticism in Principle). O primeiro diz respeito aqueles que consideram que há uma resposta, seja para um lado seja para outro, mas que de momento não há evidência para alcançá-la (ou não entender a evidência, ou não ter tido tempo de averiguar a evidência, etc..). Ou seja, a verdade está lá fora (parafraseando Arquivo X), e esperamos algum dia conhecê-la, mas de momento não a conhecemos. Essa seria uma posição plausível para a extinção da era permiana. Enquanto a segunda categoria diz respeito à questões que jamais podem ser respondidas, não importa o quanto de evidências juntemos, porque a idéia de evidência em si não se aplica a ela. A questão existe em outro plano, ou em uma outra dimensão, além do alcance da evidência. Um bom exemplo seria “Você vê o vermelho da mesma forma que eu?”, citado com freqüência por filósofos.
Tendo esta classificação em mente, entramos nos campos da existência ou não de um deus. Muitos colocam essa discussão enquanto PAP, pois colocam as teorias de existência e de inexistência de deus com iguais probabilidades de se concretizarem. Dawkins diz firmemente que a questão sobre deus pertence à categoria temporária do TAP. Ou ele existe, ou ele não existe, é uma questão científica, talvez um dia saibamos a resposta, mas até lá podemos dizer coisas bastante concretas sobre a probabilidade envolvida.
Historicamente houve centenas de questões as quais a foi dito que a ciência jamais conseguiria uma resposta. Auguste Comte disse sobre as estrelas: “Nós jamais conseguiremos, por método algum, estudar a sua composição química ou estrutura mineral.” Mas mesmo antes de ele dizer isso, Fraunhofer já usava o espectroscópio para desvendar tais mistérios.
Mas voltemos a falar das probabilidades, em primeiro lugar o fato de conseguirmos provar ou “desprovar” a existência de algo, não implica em as probabilidades de existência e não existência sejam iguais. O questionamento da existência de um deus é um problema como qualquer outro do universo, e merece ser categorizado como TAP, assim como a extinção do Permiano e de Cretáceo. E talvez um dia encontremos a resposta, em princípio, ou até na prática. E se não acharmos uma resposta definitiva, as evidências existentes e a racionalização talvez calculem uma probabilidade, com certeza longe dos 50%.
Muito desse erro se deve ao jogo que se faz com o ônus da prova. Aqui vale a pena citar a parábola do Chaleira Celestial, de Bertrand Russell:
“Muitas pessoas ortodoxas falam como se o trabalho dos céticos fosse o de desprovar dogmas, ao invés de os dogmáticos provarem-no. Isso é, obviamente, um erro. Vamos sugerir que eu dissesse que entre a Terra e Marte há uma chaleira circulando o sol, em uma órbita elíptica, ninguém seria capaz de desprovar minha afirmação, contanto que eu acrescente que a chaleira é muito pequena para ser captada até mesmo pelo nosso telescópio mais poderoso. Mas se eu dissesse isso, contanto que minha colocação não pode ser desprovada, e eu julgasse uma presunção intolerável da parte da razão humana em questioná-la, eu com certeza seria julgado como alguém falando bobagens sem sentido. Porém, se a existência da tal chaleira fosse dita em livros antigos, ensinado como verdade sagrada todos os domingos, e instigada dentro da mente de crianças na escola primária, a hesitação em crer em sua existência se tornaria um marco de excentricidade e encaminhado aquele que questiona para os cuidados de um psiquiatra em uma era mais iluminada, ou para a Inquisição em um tempo mais antigo.”
Assim como com os clássicos exemplo do Deus “Monstro de Espaguete Voador”, do Unicórnio invisível, intocável, inatingível e inaudível, as pessoas não consideram a sua existência ou inexistência como tendo iguais probabilidades, ao invés de se considerarem agnósticos, pulam direto para o “a-cheleirismo” e “a-unicornismo”. Isso apenas para demonstrar como as probabilidades tem papel fundamental nesse tipo de situação. Uma fala interessante de Dawkins sobre isso é a de quando lhe perguntam se ele é ateu, para demonstrar que o interlocutor também é ateu quando se trata de Zeus, Apollo, Amon Rá, Mithras, Baal, Thor, Wotan, e o Deus Monstro de Espaguete Voador. E que ele apenas vai um deus adiante. Ninguém se preocupa em discutir a existência desses deuses, mas já no caso do Deus Abraâmico, no entanto, há a necessidade de se incomodar, porque uma grande parcela da população com a qual dividimos o planeta acredita fervorosamente nele.
2.3 - Secularism, The Founding Fathers and the Religion of America.
Esta parte não diz muito respeito, diretamente, a nós brasileiros. Ele mostra como é errônea a visão que tentam vender dos “Pais Fundadores” dos EUA. Presume-se a partir de seus escritos que todos eram, pelo menos, deístas. Mas ao considerarmos o tempo e a situação em que viviam, é muito provável, novamente através de seus escritos, que eles teriam sido ateus em nosso tempo. Eram todos secularistas. Aqui cabe uma breve explicação do termo secularismo.
O secularismo é uma política de separação entre religião e Estado, a partir da idéia de que os sacerdotes e as instituições religiosas não devem ter poder político nem influenciar nas leis. Na Europa, o secularismo desenvolveu-se com o Iluminismo e o advento da modernidade (quando a burguesia entrou em choque com as igrejas Católica e Protestante que apoiavam os aristocratas), mas só se tornaria realidade de fato após a Primeira Guerra Mundial. No Oriente Médio, onde muitos governos e leis obedecem aos preceitos do Islamismo, o secularismo ainda é uma bandeira, defendida e praticada apenas pela Turquia. O termo "secularismo" advém da expressão "poder secular" (ou "poder temporal", com a idéia de duração finita, limitada), usada para diferenciar o poder "eterno" ou "infinito" da Igreja. No Feudalismo e outras organizações político-econômicas da Idade Média, os bispos detinham poder religioso e também secular, enquanto reis, príncipes e nobres detinham apenas o poder secular.¹
As conseqüências dessa má interpretação dos fatos têm muitas conseqüências. Principalmente no campo da política e da lei. Partidários religiosos não cansam de usar o nome de seu suposto deus em campanhas, dizer que “era isso que os pais fundadores iriam querer”, ligam os ideais cristãos com os ideais americanos, logo, com os dos pais fundadores, que para eles são como heróis. No entanto, se algumas citações de trechos de manuscritos dos seus Founding Fathers, fossem lidos no congresso nacional, iriam causar alvoroço. Apenas para elucidar, aqui vão algumas:
Thomas Jefferson
“Cristianismo é o sistema mais perverso criado pelo homem”
James Madison
“Durante quase quinze séculos tem o estabelecimento legal do Cristianismo estado na ativa. Qual foram os seus frutos? Mais ou menos, em todos os lugares, orgulho e indolência da parte do clero; ignorância e servilidade por parte dos leigos, em ambos, superstição, intolerância e perseguição.”
Benjamin Franklin
“Faróis são mais úteis que igrejas.”
John Adams
“Esse seria um dos melhores mundos possíveis, se não houvesse religião nele.”
E o óbvio problema de a moral, expressa por suas leis, de uma nação estar quase que diretamente ligada a valores impostos por credos religiosos. Mas sobre isso, falarei em outra oportunidade.